24 de Maio de 2010

BANHISTAS DA COSTA DA CAPARICA RECLAMAM REFORÇO DA VIGILÂNCIA E INFORMAÇÃO

Os banhistas que frequentam as praias da Costa de Caparica, onde sábado morreram duas pessoas e um jovem está desaparecido, reclamam o reforço de vigilância e lamentam a falta de informação, mas criticam a falta de cuidado dos veraneantes. No mesmo sentido, concessionários e bombeiros defendem igualmente vigilância por entidades oficiais fora da época balnear.

No sábado, uma criança e um adulto afogaram-se na Fonte da Telha e na Praia da Sereia, respetivamente, e um jovem de 18 anos desapareceu no mar junto à Praia do Tarquínio, prosseguindo as operações de busca levadas a cabo pelos bombeiros, polícia marítima e Instituto de Socorros a Náufragos.

“Como antigo nadador-salvador, do Alentejo, acho que as pessoas devem avaliar as condições de segurança mal chegam à praia e devem respeitar o mar, porque está mais do que provado que o mar é perigoso aqui”, disse hoje à Lusa Diogo Ramos, de 21 anos, na praia da Costa de Caparica.

Sérgio Alves, de 65 anos, é da mesma opinião e defende, por isso, que a culpa de estas coisas acontecerem “é de quem anda no mar”.

A maré é “um vaivém”

“Porque as marés agora ainda não estão, entre aspas, sossegadas, ainda está um bocado terreno bravio aqui junto às praias. A maré é um vaivém e, é claro, as pessoas pensam ‘deixa-te estar que estás bem’ e às vezes é o pior: apanha-se uma corrente mais forte e… Ninguém domina o mar, nós é que temos de nos precaver”.

Também Francisco Baía, de 53 anos, um frequentador habitual das praias da Costa de Caparica, considera que “as pessoas não têm conhecimento do que se passa com o mar a seguir ao inverno”.

Comportamentos de risco

“A insegurança, à partida, vem delas, não é? Acho que 90 por cento disto se deve a comportamentos de risco. Nós sabemos que o inverno foi rigoroso, que há fundões, que há remoinhos e essas coisas todas – toda a gente sabe isso. As pessoas não têm consciência do que andam a fazer”, sustenta.

Já Helena, de 38 anos, defende que “as pessoas têm de ser sensibilizadas para a situação”, para os perigos do mar, e acha que “há falta de informação”.

Falta de informação

Inquirida pela Lusa sobre o facto de o início da época balnear ter sido antecipado para 15 de maio em algumas praias – segundo as autoridades, na Costa de Caparica, dos 53 concessionários, há já dez com vigilância – Helena respondeu que não tinha conhecimento.

“Na verdade, eu ainda não ouvi nada acerca de a época balnear já ter começado, até achava que não tinha começado. Mas isso não impede as pessoas de virem para a praia. O povo português é um bocado aventureiro, um bocado despreocupado, é essa a realidade”, comentou.

Fim-de-semana trágico

Para Ilda Alves Aires, de 65 anos, natural da Costa de Caparica, as notícias deste fim-de-semana foram notícias tristes, que a transtornaram e deixaram “preocupada com as condições de segurança”.

“Como esteve este calor todo, as pessoas vêm em massa e metem-se na água, não sabem o perigo que é o nosso mar, mesmo que não estejam aquelas ondas assim muito, muito grandes. Mas as pessoas também têm culpa: muitas vezes, os banheiros estão aqui a apitar e as pessoas avançam e isto há agueiros, há fundões, e depois morrer afogado é um instante, morre-se num instante”, disse.

Vigilância

Por sua vez, o bodyboarder Nuno Dores, de 29 anos, é de opinião de que “quando está sol devia começar a haver maior vigilância nas praias”.

“É preciso mais reforços, talvez, e também mais cuidado das pessoas, que às vezes são um bocado inconscientes e se põem a tomar banho em sítios onde não devem”, apontou.

Pode ser falta de conhecimento mas se for poderia ser colmatada com mais informação sobre as zonas perigosas e não-perigosas, na opinião do bodyboarder, que tinha acabado de sair da água, devidamente equipado com fato e prancha debaixo do braço, numa praia que só terá vigilância apartir de 01 de junho.

Reivindicações de concessionários e bombeiros

A Federação Portuguesa de Concessionários de Praia e a Liga dos Bombeiros Portugueses defendem a necessidade de as praias serem vigiadas pelas estruturas de socorro fora da época balnear oficial, impedindo ou reduzindo o impacto de comportamentos negligentes.

O presidente da Federação, Luís Carvalho, disse hoje à Lusa que o número de pessoas que aflui atualmente às zonas balneares obriga a encarar a questão da segurança de uma forma diferente da que há anos orientava a vigilância.

“A culpa aqui é sempre repartida: as pessoas têm comportamentos errados, sem dúvida, mas neste momento as praias ainda não estão vigiadas. Deveria haver já alguma vigilância pontual assegurada por entidades oficiais que deviam garantir proteção às pessoas mais descuidadas”, afirmou.

Situações fora da época balnear

Luís Carvalho referiu que, apesar de os concessionários dos estabelecimentos serem responsáveis por contratar os nadadores salvadores, não têm meios econhecimentos técnicos para assegurar o controlo da situação fora da época balnear, que arranca a 01 de junho.

“Estamos a falar da vida das pessoas. Não vamos esperar também que sejam os comerciantes ou os residentes das localidades a contratar a PSP para fazer a sua segurança, estamos a falar de competências do próprio Estado”, sustentou o responsável.

O presidente da federação lamentou os acidentes de sábado, ocorridos apesar de os concessionários da Costa de Caparica já terem “antecipado” a época balnear e contratado “alguns nadadores salvadores”.

“Ausência de uma cultura de risco”

Para o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Duarte Caldeira, estes casos chamaram a atenção para duas questões, inclusive para os maus comportamentos: “Portugal continua a padecer, em relação aos cidadãos, da ausência de uma cultura de risco”.

Por outro lado, sublinhou, é preciso reconhecer, como já aconteceu anível dos incêndios florestais, que as condições meteorológicas já não permitem encarar estas situações apenas como um fenómeno de época.

DuarteCaldeira considerou que, além de agilizar o socorro, a presença das várias forças – polícia marítima, nadadores salvadores e estruturas dos bombeiros, das quais deve haver uma “maior utilização” – ajuda a dissuadir os banhistas mais negligentes.

(Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.)

Com. Lusa